quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Medo

O medo vai ter tudo pernas ambulâncias e o luxo blindado de alguns automóveis.
Vai ter olhos onde ninguém o veja mãozinhas cautelosas enredos quase inocentes ouvidos não só nas paredes mas também no chão no tecto no murmúrio dos esgotos e talvez até (cautela!)ouvidos nos teus ouvidos. O medo vai ter tudo fantasmas na ópera sessões contínuas de espiritismo milagres cortejos frases corajosas meninas exemplares seguras casas de penhor maliciosas casas de passe conferências várias congressos muitos óptimos empregos poemas originais e poemas como este projectos altamente porcos heróis (o medo vai ter heróis!) costureiras reais e irreais operários(assim assim) escriturários (muitos) intelectuais (o que se sabe) a tua voz talvez talvez a minha com a certeza a deles... Vai ter capitais países suspeitos como toda a gente muitíssimos amigos beijos namorados esverdeados amantes silenciosos ardentes e angustiados. Ah, o medo vai ter tudo tudo (Penso no que o medo vai ter e tenho medo que é justamente o que o medo quer). O medo vai ter tudo quase tudo e cada um por seu caminho havemos todos de chegar quase todos a ratos!
Alexandre O'Neill (texto adaptado)

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2 Comentários:

Blogger O céu da Céu disse...

Há um tempo em que o dia acaba,
e ainda não é noite(...)
É só a esta hora que se pode começar
a olhar as coisas, ou a vida:
acontece que precisamos de um pouco de escuridão para ver bem
sendo nós próprios compostos
por claridade e por escuridão.

Christian Bobin

Um beijinho grande. Continuo muito atenta às postagens da minha "aluna".E gosto muito!

30 de janeiro de 2010 às 16:41  
Blogger Banalidades disse...

Obrigada, Céu!
Obrigada pelo poema que me ofereceu e pelo seu enorme carinho!

31 de janeiro de 2010 às 12:26  

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