domingo, 1 de março de 2009

Fragilidades

As malhas do tempo emaranham-se-lhe e confundem-na.
Da memória só um ínfimo retém.
Já quase tudo é névoa travestida de vazio.
São vãs as palavras que de ausência ela desafirma.
É como uma maré que, em círculo, jaz estagnada.
O que se vê, além da dor de quem assiste,
É um corpo de luz desabitado.
Já fez mais de oitenta anos.
De si pouco resta.
Uma sombra, um espectro do esplendor que um dia foi.
Uma ressequida flor que, em tortuoso Inverno,
Ainda se nega à morte e persiste no amor.

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12 Comentários:

Blogger Carolina disse...

É assim que "ela" está?
E como tu lhe queres bem!
bjhs às duas!

1 de março de 2009 às 10:09  
Anonymous Anónimo disse...

Filipe disse...
É impressionante o modo como Eles resistem, às vezes já somos nos que estamos mais fracos que Eles.
Como eu conheço esta situação!
Bjs

1 de março de 2009 às 11:57  
Blogger Maria José Senos disse...

Os mais velhos resistem mais do que nós, as melhoras um beijinho, eu passei por a mesma situação a minha faleceu à dias com muita idade eu não chego lá.

2 de março de 2009 às 13:10  
Anonymous Juja disse...

Os meus pais faleceram muito cedo. Eu era ainda jovem (vinte e tal anos). A minha mão era filha única. Do lado paterno a família era grande e muito unida. Hoje restam duas tias (81 e 85 anos). Gosto muito das duas mas sou especialmente ligada à mais nova. Teve uma vida com acontecimentos muito dolorosos. Está muito fragilizada mas muito lúcida e fazendo uma força enorme para viver. Foi pensando nela e em todos os que já se foram que há dias escrevi o pequeno texto que lhe deixo.

NOSTALGIAS

Os meus velhos não têm idade!
Vejo-os com os olhos bem abertos,
À luz de ontem…
Não dum olhar gasto, enrugado, esquecido…
Os meus velhos nunca serão velhos,
Só assim, perdurará a criancinha que fui,
E o conforto de sabê-los lá.

A casa não ficou velha!
Não derruíu um pouco em cada ano.
Não pode ser verdade!
Ainda vislumbro o sonho do seu reviver,
Por entre as brumas dum tempo cinzento…

Mesmo as lajes do cemitério,
Que escondem os queridos,
Não são reais… não podem ser reais….
Eles estão ainda nos longínquos lugares,
Vivos de memórias….
Deixando um rasto que ninguém apagará.

Melhoras para a sua mãe. Esperança e força para si. Um abraço.

2 de março de 2009 às 15:13  
Blogger leo disse...

olá, a tua escrita reflecte o belo ser humano que tu és. bjs para as duas

2 de março de 2009 às 16:39  
Blogger Banalidades disse...

Carolina, minha amiga desde há anos, obrigada pelo calor dos teus sentimentos. Volta Sempre! Fazes-me muito bem!

3 de março de 2009 às 14:41  
Blogger Banalidades disse...

Filipe:
é verdade: somos mais fracos do que eles! Eles, os nossos idosos, vêm de outra era e têm uma resistência que nós nunca teremos. Nós, tão frágeis, vamo-nos abaixo com muito pouco...
Pode ser que aprendamos alguma coisa com eles! Aliás é nosso dever! Jinhos e obrigada por me estimares tanto!

3 de março de 2009 às 14:44  
Blogger Banalidades disse...

Maria José,
lamento muito a perda que sofreu e agradeço a atenção e o carinho que aqui me vota. Bem-haja! Volte sempre!

3 de março de 2009 às 14:45  
Blogger Banalidades disse...

Juja:
apesar de ser desolador ficar sem pais muito cedo, a sua história de vida é linda! A dedicação aos seus familiares é tocante e vê-se que muito os estima! O poema é, aliás bem a prova desse imenso afecto. É um poema tocante e cheio da sua grande alma. Gostei muito que o tivesse partilhado comigo. Fez-me bem. Estes momentos são uma dádiva no meu dia-a-dia! Jinhos

3 de março de 2009 às 14:50  
Blogger Banalidades disse...

Leo, querida, colega e amiga enorme de sempre e para sempre, para ti o meu maior carinho e a minha imensa ternura! Obrigada por existires! Jinho!

3 de março de 2009 às 14:52  
Blogger Teresinha disse...

Fátima, ao chegar aqui e ver o número de comentários que tinha, sorri, com muito carinho, por si, pelas suas palavras, porque eu faço questão de ler todos os comentários e gostei do que li!
Como sempre, aliás.

Deixo-lhe algumas pequenas frases:
[...] vou para a cama de pijama?!
- e volta, uma vez, e outra e outra, repetindo as mesmas palavras...
- onde estão os copos Teresinha? queria beber água. (com o jarro da água à frente e o respectivo copo ao lado).
- vou fazer a barba? vou tomar banho? - Hermínia, então anda cá -
- onde está a minha roupa? qual é a minha toalha?
- vamos almoçar, onde me sento, qual é a minha cadeira? Já não sei!....................

(algumas das muitas palavras que já ficam por dizer, que não encontram qualquer "eco" na memória)...
Fazem -me pensar muito a mim!
(palavras do meu sogro, agora).
A Hermínia, é minha sogra.
A minha mãe, "partiu" com 62, (há 33 anos).
O meu pai, muito mais tarde, com 92, (há 4 anos).
Desculpe, não quis com isto, lamentar-me, apenas partilhar um pouco da realidade que nos cerca.
Um abraço para si.
Teresinha

3 de março de 2009 às 16:04  
Anonymous Anónimo disse...

Depois de ler as tuas palavras e os comentários gostaria que lesses esta frase, que não é minha, mas que parece que foi feita a pensar na minhe/nossa situação. Como penso que te identificarás com ela partilho-a contigo:
" Não é a morte, mas o esquecimento que nos põe fora da vida"

Mia Couto, Remédios de deus Venenos do Diabo
Os pais nunca morrem. Para nós.
Isabel João

7 de março de 2009 às 14:27  

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