sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Era

Era outra era de um tempo
E eu era-me tempo vasto em querer
Raro em ferir, múltiplo em sentir.
Tempo de não me perder
No rodopio de um falso sorrir.
Era um tempo claro de flores
De guizos presos às grinaldas,
Enfeitando as portas das casas iluminadas.
Ninhos certos de cores e amores.
Havia o canto dos pássaros e das crianças.
Jamais se me ausentavam esperanças,
Feitas folhas de hera e ânsia.
Parecia Primavera e era Inverno.
Era Natal e eu, néscia e sem tino,
Já abandonara a minha infância.

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domingo, 10 de outubro de 2010

Outonos

Lá fora, troveja em luzes trémulas
E, porque a chuva escorre, Dissolvendo a paisagem na janela Invento uma outra, navegando cores
Perpetuando movimentos vãos.
Afixo a imagem no espaço suspenso Entre o gotejar e a vidraça. Nada de mágico, nada com graça
Nada de insólito fantasio.
Acentuo apenas os contornos
Da minha mente errante de outras eras Como o vento rodopiando nos arvoredos E tão real quanto o meu rosto já antigo,
Antes de menina e de seus medos.

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sábado, 27 de dezembro de 2008

Ainda Natal!

No natal, não! Não te queixes do mundo e dos seus acidentes! Pertences à casta de gente que escolhe os próprios caminhos. Tira dos bolsos as mãos e os olhos do peito. Enche-os de estrelas. Estende-as à noite e às pessoas que te cercam Quer te estimem ou não! Sei. Há momentos em que o silêncio é apenas uma pedra. Mas, há momentos em que o gesto o redime. Passo as minhas mãos pejadas pelos teus cabelos, Em pensamento, todos os dias. Mas o tempo é de Natal, hoje e sempre é Natal. Assim, beijo-te, mesmo que não me ouças.

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sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Mãe

Noutro tempo, quando eu era pequena, a minha mãe estendia roupa como se fizesse magia, enquanto cantava e sorria... Eu ficava a ver a roupa a esvoaçar nas suas cores e formas díspares. Um fio imenso que atravessava a paisagem. Ficava a ouvir as modas que ela persistia em cantar e à espera dos seus sorrisos cúmplices. A minha mãe era, então, como uma nuvem branca e robusta que me enchia de tranquilidade, de certezas e de conforto. Hoje, de olhos fechados, mas abertos, ainda a vejo e sinto-me renovada, como se pudesse ficar ali para sempre...

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terça-feira, 23 de setembro de 2008

Tampouco

Quando eu nasci, nasci pássaro e peixe e tigre e cisne e gazela. Nasci água e correnteza e música e ventania. Nasci Outono e Primavera . Nasci amanhecer e lua cheia. Nasci mar e maré que vai e vem.
Porém, cortaram-me as asas, secaram-me os rios. Vedaram-me os campos e as florestas. Afastaram-me as águas de marés cheias. Aprisionaram-me a alma, esvaziaram-ma em invernos desertos cegos de lua, paralizados de frio.
Emudecido o silêncio, nada restará. Nem pássaro, nem peixe, nem tigre, nem cisne, nem gazela. Tampouco eu. Só ausência e quem sabe, paz.

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segunda-feira, 23 de junho de 2008

Enamoramento

Estar enlevados. Sorrir. Acariciar. Olhar na mesma direcção. Ser cúmplices e amantes. Ser perfeitos. Mal pisar o chão. Ter sonhos. Esperar os dias na alegria de acreditar. Encetar rumos. Ser inteiros.
Confiar na vida.
Entusiasticamente. Iniciaticamente.
Eis o enamoramento.
Bem-hajam, Ricardo e Marta!

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sábado, 14 de junho de 2008

O Mar


O mar é um todo de coisas vivas: as vagas, as conchas, as algas, os peixes, as sereias, as areias... O mar é um reino onde o onírico flutua livre, lugar de fascínios e de transparências. Tudo ali é íntimo e prodigioso.

Memória de sempre na poesia dos dias.

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domingo, 25 de maio de 2008

Teatro de mim




É uma coisa já velha. Este gosto pelo jogo, pelo faz de conta, pelo desdobrar da personalidade...


Quando menina, de olhar aceso, subia, pé ante pé, até ao sótão da grande casa. Aí, esquecida dos outros, ganhava máscaras que compunha fervorosamente com saias de anquinhas, vestidos de veludo e grandes decotes, xailes puídos e misteriosos, chapéus de flores e plumas, sapatos de tacão e fivelas exuberantes. Depois, em cima de um estrado, examinava-me, mostrava-me, falava e gesticulava como se não fosse eu. Era a senhora serena e elegante que bebericava chás pela chávena de cavalinho que para lá tinha sido abandonada; era a moça do campo, cheia de saias e carregos de roupas para lavar ou de quartas à cabeça e que calcorreava o pó esquecido daquele lugar numa alucinante faina quotidiana. Ás vezes, aparecia também um cavalheiro ou dois, de calças às riscas e chapéu de côco ou simplesmente de palhinhas! Sempre uma animação. Era um corre- corre de gente. E eu sempre ali, sendo eles e sendo eu, morta de gozo na plena sedução do jogo!

Sem saber, nascia em mim um profundo gosto pelo teatro!


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quinta-feira, 22 de maio de 2008

O Amor



Sim? O que seria do Amor? O que seria do Amor, sem Teresa e Simão, Carlos e Joaninha, Pedro e Inês, Blimunda e Baltasar? Todos subservientes à Literatura, no limbo iniciático da escrita que se lhes impõe!E o que seria do ódio e da esperança, da rebeldia e da serenidade, das manhãs claras e dos mares profundos, das escarpas e das quedas, do linho e do "chamelote", dos escárnio e dos louvores, do pensar e do sentir, da dor e da alegria, deste mundo e do outro, se não fosse a Literatura? Coisa nenhuma? Não. Mas muito menos!

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Música


A música seduz-me. Quando era pequena, ficava horas a fio, olhando os dedos que, como borboletas, retiravam das teclas do piano sons inebriantes!Acontece-me ouvir música com frequência, escutar, dentro e fora de mim, sonoridades, harmonias e ritmos que me inquietam e lançam na voragem do prazer; tumultos de êxtase que me elevam e sublimam! Estar e não estar! Deixar de sentir, como Garrett, a vida de relação e apenas existir por dentro!Acontece-me ouvir música quando escuto a água lá fora, vozes de crianças no jardim, asas de andorinhas nos beirais, gritos coloridos de mulheres, rumores saborosos de vida... Uma dádiva, a música!

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