sábado, 27 de julho de 2013

Migrante

Se me arremesso, estremeço, esqueço
De repente, tropeço, impeço e despeço
Numa corrida louca, oca, na boca
O sorriso, o siso, o guizo no friso.
Estalada, fachada fechada, rachada
Uma tarde assim acabada no nada.
Eu já partida, esbatida, sem vida
Esvoaço, passo a passo no espaço
Pássaro avaro do sonho tristonho
Enleio, chilreio, do meu seio as vozes!

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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Patas de fora!



O meu avô Jacinto já morreu há muitos anos e com oitenta e tal anos. Era um homem simples, do campo e que gostava de me contar histórias e de me ouvir rir.
Havia uma figueira no valado do lado esquerdo do monte que dava deliciosos figos pretos. Nunca comi nada semelhante. Carnudos, doces, frescos porque colhidos pela manhã. Era ele quem mos trazia e, logo ali ao pequeno almoço, me alambanzava com eles. Tão bons, avô! Tão bons...
E sabes porquê, netinha? Porque para tudo há um  milagre. Que milagre, avô? Ora, o milagre da nossa égua. Uma égua que trabalhou  muito, ajudou o avô e quando ficou velhinha morreu, assim como eu hei-de morrer qualquer dia, netinha! Ora, avô... Pois, a égua morreu e sabes onde é que eu e os teus tios a fomos enterrar? Lá no sítio, onde mais tarde se dispôs a figueira! Aquilo foi cá um trabalhão. O buraco teve de ser enorme, pois a Catita era uma bela égua! E depois, quando demos pela coisa, enterrámos a égua de patas para o ar; as quatro patas ficaram de fora. Como cobri-las de terra? Que berbicacho! Dispor a Catita de lado é que era, avô! Sim, mas era cá uma côva que nunca mais acabava e julgas tu que aquilo ali é terra macia? Olha que é so pedragulhos. Uma dificuldade. Então, o que fizeram? Só havia uma solução. Qual, avô? Ora, netinha, desta vez não vais achar graça, mas tens de ver que isto são coisas da vida... Cortámos-lhes as patas e pronto. Assunto resolvido. Lá por causa disso, a terra não refilou e é vê-la cheia de  pasto farto para as ovelhas e a figueira, então já sabes.... Figueira como aquela não encontras em mais lado nenhum.Com cada figo! Parecem feitos de mel!

Ai, ai, as histórias do meu avõ. O certo é que deixei de gostar de figos pretos. Agora, só figo moscatel.

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domingo, 25 de novembro de 2012

Prazeirosamente


Ver bem, ver de perto, ver assim...
A tua pele, o teu vulto, a tua sombra
No final da viagem, no adeus dos dias
Recortada na espuma certa dos enganos
Perdida  no azul das pedras quietas
Desfazendo areias nas ideias revoltas
Desfeitando flores nas mão vazias
Vertendo águas de chuvas tardias
Mudando impossíveis searas ao vento
Assim,  no adro da casa, no vão da escada
Prazeirosamente se sofre a delícia do nunca.

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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Velhice


Rosto desalinhado de ombros em braços abandonados
Olhos baços de uma luz mortiça, de perdas e solidão
Boca fechada de encarcerados sorrisos já sem vontade
Mãos distorcidas em gestos desarticulados,  perdidos
Vontade vazia de brancos preenchida, lomjuras de outrora
Inutilidade de vida que se tornou em desencantos.

Tudo bem misturado, num desepero crescente
Porque a morte é desconhecida e a vida arrefece.

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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Talvez


Há uma escuridão por  de trás do olhar

Há uma ausência de palavras
Como se de usadas, se tivessem gasto
Definitivamente.

Há uma incapacidade de tudo, em tudo,
Uma impossibilidade.

No entanto, o dia é azul e luminoso
E cantam as andorinhas no beiral.

Talvez,  eu apenas tenha mudado
Talvez eu apenas tenha sorrido
Talvez eu apenas tenha morrido...


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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Amigo



Ah, como se melindra a amizade
Perante o orgulho, a inveja, o ciúme
ou o egoísmo.
Contudo, é paciente e, na sua calma, é fiel.
Não traz em si o fogo do amor
Ou os desvarios desenfreados da paixão
Cultiva, antes, a magia de renovar-se
Em cada encontro
Como se fosse a primeira visão do amigo.


Mas não resiste à erosão
Dos ventos do abandono
Nem à sede do deserto onde se erguem a prepotência,
A maldade e o egoísmo.
Fenece e morre,
Deixando um vazio dorido
Uma noite sem amanhecer.
Um amor  esquece-se com um outro amor,
Mas a mágoa de perder um amigo
Não se cura na doçura de um outro amigo.

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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Insatisfação



Cabeça oca oca, alma vazia vazia
Um sentir indefinido me amanhece
Acre como o dia...
Apesar dos pássaros 
Apesar do azul
Apesar do sol
Apesar do espanto.

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sexta-feira, 13 de abril de 2012

Caminhos

Estar aqui e ali, além e lá
Ser apenas na luz do dia
Cintilante e hesitante, aresta
Olhando confiante o medo
Calcorrear empedradas pistas
Desafios de vida e de morte.

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quarta-feira, 29 de junho de 2011

Melancolia

Ao descer bem dentro de mim
Há ecos de amor inúteis, vagos,
Laços desfeitos e desalegrias frias.
Talvez eu seja apenas uma mágoa quieta
Uma melancolia de nuvens
Um jardim onde crescem lilases
Botões vazios, em canteiros de azul esquecidos.

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terça-feira, 31 de maio de 2011

Desencanto

Num sentimentalismo barato
Falo-te da chuva como quem te diz que as minhas mãos
Não conseguem já trespassar-te o peito
Contemplo o verde dos prados extensos
Após ter aberto a janela sem pressas sobre a tarde.
Depois de olhar vago e sem luz
Falo-te do cansaço como que se sentada
Numa imensa poltrona de cinza
Talvez a culpa seja desta tarde sem pássaros

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sábado, 14 de maio de 2011

Agressão

É essa palavra variada
Escorregadia, perversa
Imperfeita e multiforme
Que eu só sei dizer
- Canteiro de hortênsias - azuis
Prenhas de espinhos.

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domingo, 24 de abril de 2011

Questão

Numa questão de bom senso
Tudo tem sempre alguma serventia.
Casa cama caderno tigela cadeira janela
Guarda-chuva sapato botão fivela
Livro pincel alguidar tesoura fatia.
Diante do espelho, olho-me e pergunto:
Para que sirvo eu, espelho, espelho meu?

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domingo, 17 de abril de 2011

Ceia

Esta santa ceia exibe sobre a mesa
O último pão, o feijão com água, o arroz cozido...
A toalha rota, o prato quebrado, a chávena sem asa...
A fruta já sediça para as crianças.
Eis o que restou da família e da dor apregoada
Na parede, desbotado, um retrato de tranças
E a gravura da Ceia Santa aureolada.

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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Desespero

Sem água na boca, azia acesa
Desencantada sirvo-me
Em pedaços à mesa dos desesperados.

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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Salto

Penosamente a passo e passo
Piso as pedras em falsa harmonia.
Há um não sei quê de armadilha,
Uma hesitação de pernas entre
A queda e
O salto.

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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Avesso

Este rosto que é meu, não o tinha quando nasci.
Foi com ele que entrei no espectáculo amaro daqui.
É nele que me dói a bofetada sonora do destino.
É nele que tudo o que faço se parece e aparece.
É nele que revelo aberto o meu desatino.
Este rosto que é meu não está nos retratos.
Este rosto que é meu nem se reflecte nos espelhos.
É nele que escondo as lágrimas, os medos, os actos.
Só os pássaros que passam voando
Vêm suaves pousar em mim quando o escondo.

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domingo, 12 de setembro de 2010

Sina

Pouco vale o que eu escreva
Pouco importa o que eu invente.
Nasci a contragosto...
Tenho sina de oposto;
Já meu próprio sim me desmente.
A quem eu amo está ausente.
Quem me quer é sem carinho.
Dou uma flor, recebo um espinho.
O amor chega rindo e me invade
Mas mente e fere devagarinho.
No meu lado esquerdo, coitado,
O meu coração está quebrado.
Ora, ora ele que se cole sozinho!

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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

E...

E se, finalmente saltasse depois que se fizesse o silêncio
Que decorre da decisão final e única
E fosse tão densa e espessa a solidão como uma rede
Que me envolvesse e me embalasse,
Encontraria algum remoto conforto e alguma provável paz?
Perco-me antes perplexa neste baile de máscaras.
Sou única face única entre tantas iguais.
Afinal quem sou eu? Nada.
E tu? Apenas um vago vazio na alma.

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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Partida

Neste momento, aguço os sentidos
Nenhuma palavra dita, nenhuma rosa brava
Nem um olhar, nem um gesto breve
Sequer um beijo, sequer um riso
Só a pergunta na garganta adormecida:
- Porto efémero de partir, aonde vais parar?

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sábado, 5 de junho de 2010

Exiguidades

Eu tenho a forma, mas não sou gente
Eu tenho a força, mas não tenho raça
Eu tenho intenções, mas não tenho concretizações
Eu tenho humor, mas não tenho graça
Eu tenho palavras, mas não tenho paixões
Eu sou temporal, mas apenas breve chuvisco
Eu sou ridícula, mas não desisto!
Eu sou a farsa, a fantasia de uma quimera
Solta sem rédeas no vento que passa
No desejo do quem me dera!

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