sábado, 9 de fevereiro de 2013

Galo de Entrudo



O Quiquiri levantou o pescoço, sacudiu as asas, fez-se ainda mais sério. Na sagacidade do seu discurso, marcou bem a sua superioridade. Falou das suas penas, sempre coloridas ...e lustrosas e do seu canto magnífico e imperial. Convicto de que só ele sabe, canta de galo e ai de D. Cocorocó se lhe faz frente. Centra em si o mundo, a atenção. Tudo o mais é mero galinheiro. Mesmo a D. Cocorocó, tão esforçada e competente, nunca lhe canta senão para lhe exibir a sua genialidade.
Quiquiri é assim! Ele tem sempre razão e, numa discussão, o último a cacarejar é ele, obviamente!
O pior ou o melhor é que todos (ou quase todos!) o admiram e julgam-no mesmo insubstituível.
Bajulam-no e temem-no porque das suas bicadas furiosas ninguém escapa.
As penas continuam cintilantes, a crista altiva e rosada, o canto estridente, irrompante, excessivo.
No entanto, à calada, há quem se atreva vaticinar-lhe uma boa cabidela.

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sábado, 5 de janeiro de 2013

Posso?


Até hoje, nunca fui a uma consulta ao Centro de Saúde sem que, no momento em que exponho à médica de família as minhas  questões relativas aos problemas de saúde que lá me levaram, batessem à porta e com o tradicional "Posso?", uma empregada, por dá cá aquela palha, venha perguntar alguma coisa, procurar algum papel, ou simplesmente advertir a médica sobre algo. Em nenhuma das ocasiões me pareceu que o assunto fosse verdadeiramente urgente e justificasse a interrupção. Poderia muito bem ser tratado entre uma e outra consulta. É que simultaneamente ao "Posso?" surge logo a cara e o corpo todo da funcionária, a pedir desculpa, mas já entrou, já falou com a médica, já perturbou. Quem está a ser consultado pára, deixa no ar uma questão, uma informação, uma queixa. E a médica, sempre atenta ao computador, lá se distrai uma vez mais daquilo que lhe deve ser fundamental: dar consulta ao seu paciente!
Há ainda outra questão: e se eu estivesse a ser observada, por que motivo é que seria, assim,  obrigada a mostar a minha barriga ou o meu peito a uma funcionária que nem devia insinuar-se no consultório, quanto mais, espreitar e entrar e interferir naquele momento que é do doente e do respetivo médico?
Um consultório médico não devia ser assim como um confessionário? Inviolável. Íntimo. Privado.
Devia. Mas quem é que se lembra destes preceitos já tão fora de moda?
Agora, bate-se à porta, entra-se e já está! É que sem o papel da doutora com uma dada informação atualizada não há vencimentos para ninguém este mês! Grave. Muito grave.

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domingo, 23 de outubro de 2011

Procura

Paciente, branca e vacilante
Busco com afã a palavra exata
Aquela que diga o que penso
Aquela que revele o que sinto
Palavra-abismo de espaços vastos
Palavra-nada tal pedra lava de vulcão extinto.

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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Raiva

Recomeço o rosário de coisas não ditas
De raivas contidas e anzóis aguçados
Desmemórias colhidas nas tardes feitas silêncio e distância ,
Sempre a mesma angústia a bater cá dentro
Com punhos de ferro e ardor.

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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Amanhecer

Nesta madrugada é absoluto o silêncio
Eu debruço-me à varanda da casa
Como se sobre o mar ou o deserto me debruçasse
Mas nada há senão o vazio
O céu o azul despe-se em cinza antecipando
A manhã que vai nascendo
Se porventura eu chorasse
Se te chamasse...
Tu ainda me ouvirias?

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sábado, 5 de março de 2011

Chuviscos

Hoje, no meio do chuvisco que caía
Perdi-me a imaginar tardes
Distantes locais onde me encontro e desencontro
Se me perco num tempo onde me perco em desencontro.
Assim, de mim perdida em cada trilho
Me desejei reencontrada num instante
Nesta planície parda onde me perco
Ao dar com o céu perdido em véus plúmbeos
Apercebi -me de que a noite cresceu cedo e eu
Perdida em e de mim nem me dei conta.

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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Porcela

Nesta madrugada deste meu dia
É absoluto o silêncio pesado
Inquieta debruço-me na varanda
Como se sobre o mar ou o deserto me debruçasse
Nada vislumbro senão o vazio.
O céu azul despe-se em cinza
Antecipando a tempestade
(que em mim há muito se fez)
Se porventura eu chorasse
Se te chamasse tu ainda me ouvirias?

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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Ausência

Tantos são os gestos, tantas as palavras Para explicar o convívio de juntos e separados Ao mesmo tempo em dor ou com dor. Não há tempo e espaço que me separem Do aço das nossas vidas de sinas feridas. De repente, num crescendo, apenas o vazio E um silêncio que mostra o tudo a acontecer No breve sussurro do teu dito agora Quando a gente já nada consegue dizer... Sigo, apenas, e sei que tropeço no coração.

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terça-feira, 3 de agosto de 2010

Desilusão

São mais de mil e quinhentos pedaços espalhados pela vida fora
Desde a cama até a mesa feitos retalhos de mim,
Desinventados , desiludidos, perdidos no caos
Cristalino do espelho da amizade
Partido em mais de mil e quinhentos pedaços...

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quarta-feira, 28 de julho de 2010

Espera

Agora que tudo se lhe revelou
O mais difícil é acordar: a dor é mais aguda de manhã.
Depois, vai-se dissolvendo devagar nas águas do dia.
Mas nunca chega a passar.
Finge que se recompõe e alegra-se.
Nas altas horas da noite, vela.
Fica acuada no tormento.
E se dorme, treme inexoravelmente, com o sol, ao despertar.
Espera. E espera. Apenas.

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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Dúvida

Talvez eu seja apenas uma mágoa quieta,
Um sorriso vago de giesta,
Uma melancolia de nuvens compactas,
Um mar de barcos destroçados,
Um jardim de roseiras em botões de vazios,
Um canteiro de azuis abandonados.
Talvez eu seja ainda o lilás do céu que entardece....

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sábado, 8 de maio de 2010

Silêncio

Hoje o silêncio é de lua cor-de-romã madura
À janela de uma cantiga medieval cantada em provençal
Ou em plangente galaico-português
Ou numa qualquer outra língua romance
Feita de vento brincando nos galhos de pino verde,
Feita de meninhas louçanas em alvoroço,
Na beira das praias, nas fontes e nas ermidas solitárias...
No silêncio de abismos escondidos nas pregas dos vestidos
E nas mãos acarinhando do amado o corpo nu e ausente;
No silêncio de noite fria que se alonga e se escusa à madrugada,
Nada existe para além de mim sentada e só como sempre.

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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Janeiro

É Janeiro, começo o ano.
Nada de novo: o mesmo tédio, igual vertigem; algum cansaço... E a incómoda sensação de haver Perdido todos os sonhos e todas as graças Em algum ponto esquecido do caminho. Em algum ponto remoto dentro de mim!

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Chuva

Faz frio, as nuvens carregam-se.
Nublados, varanda e dia.
A distância acinzenta-se numa cortina de névoa
E a mim, talvez se me embranqueçam
Mais depressa os ralos cabelos,
Um milímetro a menos se me alargue o riso
E eu escreva um poema inútil e tolo,
Neste dia nublado de Dezembro,
Antes que desabe a chover.

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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Cântico

A paz está na liberdade que desejo...
Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha persistente teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente que me prende.
Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho da menina
Que se afogou na esperança e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter bebido a lua!

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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Ausência

Em Setembro entardeço nos dourados
dias ténues da minha saudade.
Toco a teia de ausência nesta tarde
que pressente o Outono.
E o silêncio gruda-se-me na pele
e arde qual lamento
de gato ou cão sem dono,
colhendo, assim,
o fado de uma existência vazia, sem ti.
Resta-me este réquiem de abandono
sem perdão que ora entôo!

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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Incerteza

Olho, apaziaguada, o horizonte alaranjado;
pouco há neste entardecer povoado de lembranças
que não seja o desejo de existir.
Contudo, faz-se tarde,
a noite já se estende até à minha porta
e aos caminhos que trilho.
Todos os caminhos se emaranharam
em impossíveis labirintos
e já não há de onde partir
tampouco aonde chegar.

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terça-feira, 11 de agosto de 2009

Inexistência

Sozinha.
Sei de tantos descaminhos
Sei de tantos desolhares
Sei de tantas desistências.
Sei como é estar sozinha
Sem nenhuma indulgência,
Sem tempo ou vontade sonhados.
Sei de mim - um ser marinho Na iminência de esquecer o mar Ando vizinha dos abismos e dos remoinhos. Sem vinho, sem herói, sem Quixote ou moinho Sigo adiante - e de ausência cinjo-me enquanto Escrevinho estes versos da minha inexistência.

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sábado, 11 de julho de 2009

Esperanças

Vieram mudanças e vieram as esperanças!
Então,vou apertar nós, despir caminhos, carpir palavras, desescrever ilusões
olhar céus, contemplar nuvens e ventos,
crescer nas marés, mergulhar em ondas vagas
soltar, das mãos cheias, o buquê azul de hortênsias vivas...
Agora, aquecer as mãos que, num antigo entardecer,
se soltavam de anseios;
Agora, tecer nos dedos mil remoinhos
desse mar que invade e refresca.
Quem sabe o que reservam os dias que hão-de vir,
se em si preservam o ardor ou, se qual moinhos,
lançam desafios de sonhadas velas?
E os restos do que foi felicidade porque também a houve,
que esse mesmo mar os trague em suas rebentações brancas.
Melhor assim.

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terça-feira, 16 de junho de 2009

Circunstâncias

Há um halo laranja em torno da lua
Há um outro de ausência em torno do mundo.
Nas terra, nenhuma fogueira.
No céu, sequer uma estrela....
Resto só eu, emudecida.
Tento a custo desadivinhar a vida.
Quase sempre, em vão.

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