terça-feira, 5 de outubro de 2010

Cativeiro

Quando é que o cativeiro
Acabará em mim,
E, próprio dianteiro,
Avançarei enfim?
Quando é que me desato
Dos laços que me dei?
Quando serei um facto?
Quando é que me serei?
Quando, ao virar da esquina
De qualquer dia meu,
Me acharei alma digna
Da alma que Deus me deu?
Quando é que será quando?
Não sei. E até então
Viverei perguntando:
Perguntarei em vão.
Fernando Pessoa

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sexta-feira, 18 de junho de 2010

Homenagem

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos, com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente dentro do fogo.
Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Helder

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domingo, 14 de fevereiro de 2010

Amor

“Amor é...
Ver-te chegar num eco de ave,
e deixar que me prendas
com o teu gesto mais suave,
sentir-te, só, ao pé de mim,
e sentir-me tão só longe de ti...”
Nuno Júdice, Geometria Variável

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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Loucura

"Hoje, vou levantar-me e vou estar contente....
Vou andar por mim dentro em visita...
Vou a mim própria ser-me, vou respirar-me, rir-me,
Vou a mim própria abrir-me, a mim própria despir-me...
A mim própria dançar-me...
Com o meu amor afogar-me, com a minha angústia ferir-me,
Com os meus sonhos e a minha esperança erguer-me!
Com a minha loucura endoidecer-me!"
Ana Hatherly (texto adaptado)

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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Quase

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém… Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo … e tudo errou…
— Ai a dor de ser — quase, dor sem fim…
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…
Momentos de alma que, desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…
Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…
Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…
Mário de Sá Carneiro

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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Indício

Tu eras também uma pequena folha que tremia no meu peito. O vento da vida pôs-te ali. A princípio não te vi: não soube que ias comigo, até que as tuas raízes atravessaram o meu peito, se uniram aos fios do meu sangue, falaram pela minha boca, floresceram comigo. Pablo Neruda

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domingo, 23 de agosto de 2009

Tranquilidade

“Não precisas bater quando chegares. Toma a chave de ferro que encontrares sobre o pilar, ao lado da cancela, e abre com ela a porta baixa, antiga e silenciosa. Entra. Aí tens a poltrona, o livro, a rosa, o cântaro de barro e o pão de trigo. O cão amigo pousará nos teus joelhos a cabeça..."
(Guilherme de Almeida in "A Hóspede")

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quinta-feira, 2 de julho de 2009

Anoitecer

Ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia
Al Berto

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sábado, 2 de maio de 2009

Ver Claro

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
Eugénio de Andrade

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sábado, 4 de abril de 2009

Doenças

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta coisa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.
Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.
Fernando Pessoa

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sexta-feira, 20 de março de 2009

Glória!

Depois do Inverno, morte figurada, A Primavera, uma assunção de flores. A vida Renascida E celebrada Num festival de pétalas e cores. Miguel Torga

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domingo, 8 de março de 2009

A Mulher Mais Bonita do Mundo

estás tão bonita hoje.
quando digo que nasceram flores novas na terra do jardim, quero dizer que estás bonita.
entro na casa, entro no quarto, abro o armário, abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio de ouro.
entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como se tocasse a pele do teu pescoço.
há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.
estás tão bonita hoje.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
estás dentro de algo que está dentro de todas as coisas, a minha voz nomeia-te para descrever a beleza.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. de encontro ao silêncio, dentro do mundo, estás tão bonita é aquilo que quero dizer.
José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

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quarta-feira, 4 de março de 2009

Feridas

Entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida de que não conseguimos regressar
e uma noite a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios.
Alice Vieira

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Escrever

"Ao escrever sobre o que sentimos acabamos por vezes a sentir o que escrevemos porque o escrevemos. Explico-me. Às vezes, escrevem-se coisas porque vão umas com as outras, porque rimam significados ou simplesmente ficam bem. Porque as palavras procuram outras de uma certa maneira irrecusável. E depois já está. As palavras possuem esse poder de moldar o que a mão ao escrevê-las queria dizer. Escrever não é um acto de um sentido só, uma espécie de rua de sentido único entre o que temos dentro e o que aparece de fora, escrito. Este «de fora» que parece ser a escrita, se molda o que depois ao ler sentimos, é porque está ainda «de dentro». Mas às vezes o cansaço apodera-se de nós, e temos vontade de parar. Não sei se de escrever se de sentir, possivelmente de estar sempre a pensar nisso. Parar: vontade de fechar os olhos e ver." Dylan Tomas

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sábado, 14 de fevereiro de 2009

Amor

Tira-me a luz dos olhos: continuarei a ver-te...
Tapa-me os ouvidos: continuarei a ouvir-te...
E embora sem pés caminharei para ti...
E já sem boca poderei ainda convocar-te.
Arranca-me os braços: continuarei abraçando-te
Com o meu coração como com a mão...
Arranca-me o coração: ficará o cérebro,
E se o cérebro me incendiares também por fim,
Hei-de então levar-te no meu sangue.
Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta

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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Vida desmedida

Não. Não tenho limites. Quero de tudo Tudo.... Sou uma fonte incontida De viver. E o que redime a vida É ela não caber Em nenhuma medida. Miguel Torga

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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Cantiga dos Ais

Os ais de todos os dias Os ais de todas as noites Ais do fado e do folclore O ai do ó ai ó linda Os ais que vêm do peito Ai pobre dele coitado Que tão cedo se finou Os ais que vêm da alma Ais d'amor e de comédia Ai pobre da rapariga Que se deixou enganar Ai a dor daquela mãe Os ais que vêm do sexo Os ais do prazer na cama Os ais da pobre senhora Agarrada ao travesseiro Ai que saudades saudades Os ais tão cheios de luto Da viúva inconsolável Ai pobre daquele velhinho Ai que saudades menina Ai a velhice é tão triste Os ais do rico e do pobre Ai o espinho da rosa Os ais do António Nobre Ais do peito e da poesiae Os ais doutras coisas mais Ai a dor que tenho aqui Ai o gajo também é Ai a vida que tu levas Ai tu não faças asneiras Ai mulher, és o demónio Ai que terrível tragédia Ai a culpa é do António Ai os ais de tanta gente Ai que já é dia oito Ai o que vai ser de nós E os ais dos liriquistas A chorar compreensão Ai que vontade de rir E os ais do D. Dinis Ai Deus e u é Triste de quem der um ai Sem achar eco em ninguém Os ais da vida e da morte Ai os ais deste país! Mendes de Carvalho

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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Reflexão

"As pessoas crescidas têm sempre necessidade de explicações... Nunca compreendem nada sozinhas e é fatigante para as crianças estarem sempre a dar explicações." Saint-Exupéry

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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O Sopro

Implorando o sopro do ser divino,
o sopro que dá a vida,
o sopro de muita idade,
o sopro das águas,
o sopro das sementes,
o sopro da fecundidade,
o sopor da abundância,
o sopro do poder,
o sopro da força,
o sopro de todas as espécies de sopro
pedindo o seu sopro,
inspirando o seu sopro no calor do meu corpo,
incorporo seu sopro
para que vivas sempre luminosamente.
Poema Ameríndio, traduzido por Herberto Helder

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A Vida

"Recomeça...Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças."
Miguel Torga

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